Homilia Santa Missa de envio | Jornada Mundial da Juventude - Guadalajara 2026

  

DOM LUCAS HENRIQUE  CARDEAL LORSCHEIDER E.P. 

POR MERCÊ DE DEUS E DA SÉ APOSTÓLICA
CARDEAL DIACONO DE SANCTUS CÆSARI IN PALATIO
BISPO DA DIOCESE DO PILAR

HOMILIA DA SANTA MISSA DE ENVIO
JMJ GUADALARAJA - 2026


"Deixai crescer um e outro até a colheita!" (Mt 13,30)

Queridos irmãos e irmãs, queridos jovens, peregrinos da esperança,

Celebramos hoje uma Eucaristia muito especial: a Missa de Envio da Jornada Mundial da Juventude Guadalajara 2026. Não se trata apenas de uma celebração de despedida, mas de um verdadeiro Pentecostes missionário. Ninguém sai desta missa da mesma forma como entrou. A Igreja nos envia, não porque já sejamos perfeitos, mas porque fomos alcançados pela misericórdia de Deus e chamados a testemunhar o seu amor no mundo.

As leituras que a liturgia nos oferece iluminam profundamente este momento.

Na primeira leitura, o profeta Miqueias faz uma das mais belas profissões de fé em toda a Escritura: "Qual Deus é como tu, que apagas a culpa e perdoas o pecado?" (Mq 7,18). O Deus revelado por Jesus não é um Deus que se cansa de amar, nem um Deus que contabiliza os nossos fracassos. É o Deus que lança os nossos pecados no fundo do mar, que permanece fiel às suas promessas e cuja misericórdia vence sempre.

Esta é uma verdade fundamental para quem parte em missão. Não somos enviados porque somos os melhores. Não somos enviados porque nunca erramos. Somos enviados porque experimentamos a misericórdia. Um discípulo que nunca se deixou perdoar dificilmente será capaz de anunciar o Evangelho da esperança. Mas aquele que sabe o quanto foi amado torna-se naturalmente missionário.

O salmo reforça esta certeza quando suplica: "Mostrai-nos, Senhor, vossa misericórdia." A missão começa sempre com esta oração. Antes de anunciar qualquer coisa, precisamos contemplar o rosto misericordioso de Deus. Antes de falar de Cristo aos outros, precisamos permitir que Cristo fale ao nosso coração.

É significativo que esta Missa de Envio aconteça logo após o Evangelho proclamado no último domingo, a parábola do joio e do trigo (Mt 13,24-30). Jesus nos ensinava que o Reino cresce em meio às ambiguidades da história. O bem e o mal convivem até o tempo da colheita. Os servos queriam arrancar imediatamente o joio, mas o Senhor respondeu com paciência: "Deixai crescer um e outro até a colheita."

Aquele Evangelho continua ecoando hoje. Os jovens que participaram desta Jornada retornam para um mundo onde o trigo e o joio continuam misturados. Encontrarão famílias marcadas por dificuldades, ambientes de trabalho tensos, universidades onde a fé é questionada, redes sociais repletas de polarizações, violência, indiferença religiosa e tantas formas de sofrimento.

Seria fácil pensar que a missão consiste apenas em combater o joio. Mas Jesus nos ensina algo mais profundo: a missão consiste sobretudo em cultivar o trigo. O discípulo não vive obcecado pelo mal; vive apaixonado pelo bem. Não perde todas as suas energias denunciando as trevas; procura acender luzes. Não dedica toda a sua vida a condenar o mundo; trabalha para transformá-lo a partir do amor.

E é precisamente isso que o Evangelho de hoje nos mostra.

Enquanto Jesus está ensinando, alguém lhe informa que sua mãe e seus parentes o procuram. A resposta de Jesus pode parecer dura à primeira vista: "Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?" Mas logo Ele estende a mão para os discípulos e afirma: "Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe."

Jesus não está diminuindo Maria. Pelo contrário. Maria é a primeira entre aqueles que fazem perfeitamente a vontade do Pai. Ela é bem-aventurada justamente porque ouviu a Palavra de Deus e a colocou em prática.

O Senhor amplia os laços da família. A partir de Cristo nasce uma nova humanidade. A Igreja não é uma associação de pessoas que pensam igual; é uma família formada pela obediência amorosa à vontade do Pai.

Esta mensagem é especialmente importante para uma Jornada Mundial da Juventude. Durante estes dias, jovens provenientes de tantos povos, culturas, idiomas e realidades descobriram algo extraordinário: já pertenciam à mesma família antes mesmo de se conhecerem. A comunhão da Igreja supera fronteiras políticas, culturais e sociais.

Quando regressarem aos seus países, não voltarão sozinhos. Levarão consigo milhares de rostos, histórias, testemunhos e amizades construídas em Cristo. A experiência da JMJ recorda que a Igreja é verdadeiramente católica, isto é, universal.

Mas esta família possui uma missão.

Jesus não diz apenas: "Vocês são minha família." Ele afirma que pertencem à sua família aqueles que fazem a vontade do Pai. A identidade cristã não é apenas um privilégio; é uma responsabilidade.

O envio missionário significa exatamente isto: continuar fazendo a vontade do Pai nas pequenas e grandes escolhas da vida.

Fazer a vontade de Deus quando ninguém está olhando. Fazer a vontade de Deus nas redes sociais, promovendo a verdade, a caridade e o respeito. Fazer a vontade de Deus na universidade, testemunhando honestidade intelectual e coragem moral. Fazer a vontade de Deus na política, na economia, na ciência, na cultura, no esporte e nas artes. Fazer a vontade de Deus dentro da própria família, onde muitas vezes começa a missão mais difícil.

A JMJ termina, mas o discipulado continua.

Aliás, talvez seja mais correto dizer que a Jornada não termina hoje. Ela apenas muda de endereço. Ela continuará nas paróquias, nos grupos de jovens, nas comunidades, nas escolas, nos ambientes digitais, nas periferias existenciais e geográficas onde Cristo continua esperando seus discípulos.

Há outro ponto de contato entre o Evangelho do joio e do trigo e o Evangelho de hoje.

Na parábola, Deus manifesta uma extraordinária paciência com o crescimento da semente. No Evangelho de hoje, Jesus manifesta confiança na capacidade dos discípulos de se tornarem sua verdadeira família.

Em ambos os casos aparece um Deus que acredita nas pessoas. Nós, muitas vezes, desistimos rapidamente uns dos outros. Deus não. Nós enxergamos apenas limitações. Deus vê possibilidades. Nós olhamos o presente. Deus contempla também o futuro que sua graça pode construir.

Talvez alguns jovens presentes nesta celebração sintam que ainda não estão preparados para a missão. Talvez carreguem feridas, dúvidas ou pecados. Talvez pensem que outros seriam mais capazes.

A Palavra de Deus responde com delicadeza: o Senhor não chama pessoas prontas; prepara aqueles que chama. A missão nunca nasce da autossuficiência, mas da confiança na graça.

Foi assim com Pedro. Foi assim com Paulo. Foi assim com tantos santos jovens ao longo da história da Igreja. Foi assim também com Maria. E pode ser assim conosco.

Queridos jovens, o mundo não precisa apenas de influenciadores; precisa de testemunhas. Não precisa apenas de opiniões; precisa de vidas transformadas. Não precisa apenas de discursos religiosos; precisa encontrar homens e mulheres cuja existência revele que Cristo está vivo. Voltem às suas casas levando aquilo que receberam aqui.

Levem alegria onde existe tristeza. Levem esperança onde reina o desânimo. Levem unidade onde há divisões. Levem misericórdia onde predominam os julgamentos. Levem paz onde impera a violência. E, sobretudo, levem Cristo. Porque ninguém pode dar aquilo que não possui. E quem encontrou verdadeiramente Jesus não consegue guardá-lo apenas para si. A primeira leitura terminava recordando que Deus permanece fiel ao seu povo. Esta fidelidade sustenta também o nosso caminho. Haverá dificuldades, cansaços e até aparentes fracassos. Mas o Senhor continua caminhando conosco.

Ao final desta celebração, cada um será enviado. A palavra "missa" vem precisamente do envio: Ite, missa est. Ide. A celebração continua agora na vida.

Voltem como sementes de trigo lançadas nos campos do mundo. Talvez pequenas, talvez escondidas, talvez aparentemente frágeis. Mas o Reino de Deus sempre começa assim: discretamente, silenciosamente, fecundando a terra até produzir frutos que ultrapassam toda expectativa.

Que Maria, Mãe da Igreja e primeira discípula, aquela que fez plenamente a vontade do Pai, acompanhe cada peregrino em seu retorno. Que ela nos ensine a guardar a Palavra no coração, a permanecer firmes junto à cruz e a viver sempre disponíveis para a missão.

E que, quando esta Jornada já for uma bela lembrança, permaneça viva em nós a decisão mais importante que ela pode produzir: não apenas recordar um encontro com Cristo, mas viver todos os dias como membros da sua família e como missionários do seu Reino.

Amém.

LUCAS CARDEAL LORSCHEIDER EP-M
Bispo Diocesano 

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